segunda-feira, 26 de setembro de 2022

 Gestão e desempenho 

Dimensionar e gerir de forma inteligente a força de trabalho é essencial para produção de valor pelo foco em resultado, escreve 



Pós-pandemia trouxe a necessidade de regulamentar o trabalho à distância em bases permanentes para garantir segurança das novas relações,


O governo federal introduziu uma grande inovação no gerenciamento da força de trabalho do Poder Executivo: o PGD (Programa de Gestão e Desempenho). O programa pode ter efeitos racionalizadores também na sua logística e nas suas despesas de custeio. 

O PGD tem um inegável potencial de transformação da maneira tradicional de o governo operar. Favorece a mudança de foco do controle de procedimentos burocráticos para privilegiar a produção de resultados. Se no campo da governança mais ampla o governo tem falhado, no nível da gestão, até por pertinácia burocrática, houve avanços importantes, com a aprovação de novos normativos de licitações e contratos; a racionalização da estrutura de funções e cargos comissionados e, notadamente, a inovação representada pelo PGD na institucionalização do teletrabalho na administração pública federal direta, autárquica e fundacional (APF).

A pandemia impôs que as organizações públicas e privadas se estruturassem a toque de caixa para dar continuidade a suas atividades em um contexto em que restrições sanitárias impunham a adoção de procedimentos de distanciamento social. De modo geral, pode-se dizer que foram bem-sucedidas nessa transição emergencial forçada pelas circunstâncias.

No redesenho das atividades para adequá-las ao trabalho remoto, a primeira descoberta foi a de que já havia disponível um conjunto de ferramentas tecnológicas e comunicacionais capazes de permitir a operação em rede de forma descentralizada. O trabalho remoto não era uma novidade, mas sua disseminação rápida, sim.

O argumento principal para a defesa da nova modalidade de trabalho à distância é que não houve prejuízo da produção e da produtividade, ou seja, a métrica do resultado não foi prejudicada em razão dos rearranjos operacionais. Mais, desses rearranjos adveio a redução das despesas de custeio em decorrência de economias logísticas, de suporte e de apoio. Uma necessidade menor de espaço físico, com impacto correspondente nos custos de facilities e outros itens inerentes ao trabalho presencial.

O pós-pandemia trouxe a necessidade de regulamentar o trabalho à distância em bases permanentes, revendo ainda a forma de gerenciar o trabalho presencial e definindo os conceitos de home office e de teletrabalho, para garantir a segurança das novas relações tanto no setor público como no setor privado.

Foi promulgada a Lei nº 14.442/2022, que alterou a legislação trabalhista, admitindo que o teletrabalho ou trabalho remoto seja feito por jornada, caso do home office, ou por produção ou tarefa, quando não cabe o controle do número de horas trabalhadas a cada dia.

É exatamente essa segunda modalidade a contemplada pelo PGD, nos termos do Decreto nº 11.072/2022, tanto no caso de trabalho presencial, quando há a dispensa do controle de frequência por meio do sistema pertinente, como no caso do trabalho remoto. Na área pública, a diretriz é que o controle ocorra nos termos do plano de trabalho previamente pactuado entre servidores e chefias, por prazo determinado, com descrição qualitativa e/ou quantitativa de tarefas e produtos, sujeitos os planos a monitoramento por sistema específico e à revisão e à avaliação periódicas conforme as necessidades de serviço.

Esse microgerenciamento da força de trabalho com base em resultados, e não em controle de frequência e expedientes rígidos, demanda especial preparo das chefias intermediárias e deve ocorrer paralelamente com o esforço de racionalização da ocupação predial. A orientação para órgãos e entidades é no sentido de favorecer o uso e o compartilhamento de próprios da União e de criar estações de co-trabalho (coworking); além de racionalizar o custeio governamental, visando à obtenção de ajustes estruturais permanentes. É importante que essas iniciativas sejam implantadas de modo integrado, explorando os efeitos positivos recíprocos em um marco normativo que conjugue estímulos estímulos e enforcement.

Esse modelo de gestão com base em resultado deve impactar o dimensionamento da força de trabalho, mudando sua composição qualitativa e a demanda quantitativa, e levando a uma revisão da metragem média per capita requerida para abrigá-la. O potencial é enorme em termos de redução da demanda por locação imobiliária e de liberação de imóveis hoje em uso especial para alienação, locação ou destinação social. Parece evidente o círculo virtuoso, pois essa racionalização no uso de espaços físicos deve estimular ainda mais a disseminação do teletrabalho.

Evidentemente, o teletrabalho não é uma panaceia universal. Está implícito no próprio desenho do PGD que modalidades de trabalho presenciais, híbridas e integralmente remotas devem ser ajustadas conforme as peculiaridades organizacionais de cada órgão ou entidade que, ao aderirem à nova sistemática, têm a flexibilidade de graduá-la conforme a natureza de cada serviço prestado a usuários internos e externos.

A ideia-força a não ser perdida é a produção de valor pelo foco em resultado na engenharia institucional de cada ente para dimensionar e gerir de forma inteligente a sua força de trabalho.



Marcelo Viana Estevão de Moraes, 57 anos, é integrante da carreira de EPPGG (Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental), pesquisador do CEAG/UnB e doutor em Ciências Sociais pela PUC-Rio. Foi secretário de Gestão e de Previdência Social no governo federal. É autor do livro "A Construção da América do Sul: o Brasil e a Unasul" (Appris, 2021) -  Poder 360


































domingo, 3 de abril de 2022

As consequências inesperadas da semana de trabalho de 4 dias

                          Getty Images

 Quando Koray Camgöz conseguiu a semana de trabalho de quatro dias, parecia haver inúmeros benefícios.

Ele trabalha como relações públicas em Londres e seu novo cronograma de trabalho o forçou a organizar melhor o seu tempo.

Ele conseguia cumprir seus prazos, mantinha suas tarefas em dia e ainda tinha um dia a mais sem trabalhar toda semana. E, o mais importante, ele havia sido pai há pouco tempo e podia passar mais tempo com seu filho.

O seu dia de descanso variava entre as terças e quartas-feiras. Mas, em um ambiente sempre conectado, ele ainda precisava estar disponível para emergências no seu dia de descanso e trabalhava por mais tempo nos outros dias para compensar.

O limite entre a casa e o trabalho ficou indefinido", segundo Camgöz. "Na noite de domingo, eu examinava minhas tarefas e dividia meu tempo da melhor forma possível." Mas ele conta que todas essas compensações valiam a pena.

"Fiquei satisfeito em poder passar mais tempo com meu filho, o que de outra forma não seria possível. E diminuiu a pressão financeira: só aquele dia extra em casa me permitia economizar 400 libras (R$ 2,5 mil) por mês com a creche."

Mas alguns membros mais velhos da sua equipe não estavam tão satisfeitos com esse padrão de trabalho, já que eles preferiam um cronograma convencional. "Eu achei que estava indo bem, mas o meu gerente não tinha a mesma impressão", conta Camgöz. "Profissionalmente, eles estavam me vendo menos e, por isso, pensavam que eu estivesse produzindo menos."

Sem receber feedback claro, ele acabou sem saber com certeza onde realmente estava. Até que, seis meses depois, Camgöz teve a oportunidade de ser promovido, mas com uma condição: ele precisaria retomar o cronograma de cinco dias por semana.

Equilíbrio

Desde que a pandemia trouxe mudanças sem precedentes para o mundo do trabalho, tem havido muita discussão sobre a semana de trabalho de quatro dias. Anunciada como a panaceia para o burnout e o estresse profissional, empresas e até governos vêm experimentando essa ideia. E resultados preliminares indicam possíveis benefícios, que incluem melhor equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho e aumento do bem-estar, sem prejuízo para a produtividade dos funcionários.

                   Para os pais com filhos pequenos, ter um dia extra de folga é uma grande ajuda - Getty Images

Mas, mesmo quando um dia de trabalho é apagado do calendário, a carga de trabalho, em muitos casos, permanece a mesma. Enfrentando um cronograma mais rigoroso, os trabalhadores muitas vezes precisam adaptar-se a novas práticas e ao aumento das horas de trabalho.

E, como descobriu Camgöz, a rápida mudança para um novo modelo de trabalho pode levantar dúvidas - especialmente se nem todos estiverem totalmente de acordo com a mudança. Isso significa que a semana de trabalho de quatro dias pode trazer muitos pontos positivos, mas também poderá trazer consequências inesperadas para algumas pessoas.

A evolução da semana de trabalho de quatro dias

As discussões sobre a duração da semana de trabalho não têm nada de novo. Já em 1926, a Ford Motor Company padronizou a semana de segunda a sexta-feira. A prática anterior era da semana de seis dias, com apenas os domingos para descanso.

"A teoria de Henry Ford era que os cinco dias [de trabalho], com o mesmo pagamento, aumentariam a produtividade dos trabalhadores, já que as pessoas se esforçariam mais na semana de trabalho mais curta", segundo Jim Harter, cientista-chefe de gestão do ambiente de trabalho e bem-estar da empresa de pesquisas de opinião norte-americana Gallup, com sede em Nebraska.

Em grande parte, comprovou-se que a teoria de Ford era correta. Nas décadas que se seguiram, a semana de trabalho de cinco dias tornou-se prática comum.

                  Antigamente, a semana de trabalho era de 6 dias. O trabalho só parava no domingo - Getty Images

Mas, na década de 1950, houve apelos dos sindicatos de trabalhadores pela introdução da semana de quatro dias. "As pessoas começaram a imaginar que, se retirássemos outro dia da semana, seria ainda melhor", segundo Harter.

Em março de 2020, um estudo da Gallup com mais de 10 mil empregadores americanos de período integral demonstrou que apenas 5% haviam adotado semanas de trabalho mais curtas. A adoção da semana de trabalho de quatro dias permaneceu lenta, até que a pandemia fez com que alguns líderes reanalisassem a questão, gerando um enorme crescimento do número de tentativas e anúncios de redução da semana de trabalho.

"As recentes mudanças no trabalho aceleraram o movimento pelos quatro dias", segundo Alex Soojung-Kim Pang, que mora na Califórnia, nos Estados Unidos, e é diretor de programas da ONG 4 Day Week Global, defensora da semana de trabalho mais curta.

Para ele, "a pandemia deixou claro que podemos mudar radicalmente a forma como trabalhamos. A Grande Renúncia [a tendência que levou um número recorde de trabalhadores norte-americanos a deixar seus empregos durante a pandemia de covid-19] fez com que as companhias procurassem novas ferramentas de recrutamento e retenção [de funcionários]."

Modelos de trabalho

Existem modelos diferentes da semana de trabalho de quatro dias, que vão desde eliminar um dia de trabalho, reduzindo as horas e pagando o mesmo salário, até horas de trabalho intensas, durante as quais o trabalho de cinco dias é reunido em quatro turnos mais longos e assoberbados.

O objetivo geralmente é o primeiro cenário, atingido por uma combinação de novas ferramentas e práticas de operação que aumentam a eficiência e resultam em maior bem-estar dos trabalhadores, o que alimenta a produtividade. Mas, se as mudanças operacionais não forem cuidadosamente planejadas, existe um grande risco de ocorrer a segunda situação.

                                Ao trabalhar em casa, às vezes fica difícil manter os espaços separados - Getty Images

"Um erro comum é uma empresa dizer 'vamos começar na segunda-feira e definir conforme as coisas acontecem'", segundo Pang. "Isso pode criar grandes problemas pelo caminho."

Como o trabalho de cinco dias cabe em quatro?

À medida que os empresários tornaram alguns esquemas piloto permanentes nos últimos meses, os funcionários se familiarizaram com os prós e contras da semana de trabalho de quatro dias.

Jennifer Shepherd afirma que a mudança para uma semana de trabalho mais curta foi "transformadora". Seu empregador sediado em Durham, no Reino Unido - a fintech Atom -, introduziu a semana de quatro dias de trabalho em novembro de 2021 para todos os seus 430 funcionários.

"A sexta-feira agora é um dia especial que passo com minha filha de um ano de idade", ela conta.

Já Andy Illingworth, da agência de design Punch Creative, com sede em Leeds, no Reino Unido, trabalha quatro dias por semana desde 2020 e também valoriza muito seu dia de folga adicional. "As tardes de sexta-feira historicamente não são as mais produtivas", segundo ele.

"Agora, na sexta-feira, posso explorar meus hobbies, jogar tênis e fazer longas caminhadas. E também tenho mais tempo para preparar ideias e técnicas que posso apresentar na manhã de segunda-feira. Eu não gostaria de voltar para a semana de trabalho de cinco dias", afirma Illingworth.

Mas Illingworth e Shepherd sabem que fazer todo o trabalho em quatro dias em vez de cinco pode ter um custo. O horário de trabalho obrigatório de Illingworth agora tem 90 minutos a mais todos os dias, de segunda a quinta.

                  Jennifer Shepherd e Andy Illingworth afirmam que o dia de folga que eles agora têm a mais é muito importante para eles

"Trabalho das 8 horas da manhã às 5 da tarde, com um intervalo de 30 minutos para almoço", explica ele. "Precisamos cortar nossa hora de almoço pela metade. Mas eu me sinto mais renovado, mais concentrado e produtivo, trabalhando quatro dias a fio."

Já Shepherd está se adaptando ao ritmo de trabalho mais intenso. "Ainda há ocasiões em que entro em pânico no meio da tarde de quinta-feira e lembro que não tenho mais outro dia de trabalho para terminar tudo", ela conta. "Mas agora uso meu tempo com mais eficiência. Posso trabalhar quando for mais conveniente. Quando as crianças estão na cama, posso me logar e me dedicar a algum trabalho mais intenso, com a satisfação de não receber e-mails ou mensagens instantâneas."

Contras

A pesquisa Gallup também encontra impactos positivos e negativos da semana de trabalho mais curta. Enquanto o bem-estar dos funcionários aumenta e o burnout diminui com a semana de quatro dias, também cresce a falta de comprometimento. Os trabalhadores que já se sentem desconectados da companhia ficam predispostos a afastar-se ainda mais, se trabalharem menos dias.

Alguns funcionários podem resistir à semana comprimida imposta pelo seu empregador, que pode ter mais horas de trabalho e menos intervalos. Outros podem já estar trabalhando a toda velocidade, o que significa que a semana de trabalho mais curta poderá prejudicar a administração da sua carga de trabalho.

"Existem funcionários que acabarão tentando absorver mais trabalho nos quatro dias, quando antes eles tinham mais flexibilidade para trabalhar por cinco dias", segundo Harter. "Chegar à tarde de quinta-feira ainda sem terminar o seu trabalho enquanto todos vão para casa pode criar estresse e ressentimento."

Pang afirma que uma possível armadilha com a semana de trabalho de quatro dias é o impacto sobre a equipe de trabalho: os funcionários ficam tão concentrados em terminar suas tarefas em um cronograma mais rigoroso que a chama da colaboração se apaga. "Os escritórios podem acabar parecendo cidades-fantasma", acrescenta ele.

Mas Illingworth acredita que esses "pequenos problemas de adaptação" podem ser corrigidos com o tempo. "O nosso local de trabalho tem uma atmosfera dinâmica", segundo ele. "Correr para terminar um trabalho na tarde de quinta-feira não acontece com frequência."

A importância do planejamento operacional

No momento, muitas empresas estão buscando novas formas de atrair e reter os melhores talentos.

Segundo uma pesquisa recente entre 4 mil trabalhadores nos Estados Unidos, 83% deles querem a semana de quatro dias. Isso aumenta a possibilidade de que as empresas corram em busca de uma semana de trabalho mais curta, idealizando mudanças de política substanciais de forma precipitada.

Mas Pang adverte que, em vez de aumentar a pressão sobre os funcionários para que trabalhem com maior rapidez por menos dias, o cuidado no planejamento e preparação é fundamental para tornar o modelo de trabalho sustentável.

                 A semana de quatro dias pode ser uma solução para alguns, mas não para todos - Getty Images

"Não conheço muitas companhias que têm sucesso sem transformar radicalmente suas operações diárias", segundo ele. "É fundamental elaborar uma semana de trabalho mais curta que seja justa para todos, desde os executivos até os trabalhadores da linha de frente."

Harter sugere que um modelo de trabalho mais personalizado para cada funcionário - que pode incluir uma semana de trabalho mais curta - pode ser uma solução melhor do que a simples imposição de um padrão de quatro dias para todo o quadro de pessoal.

"A semana de trabalho de quatro dias pode ser a resposta para algumas pessoas", segundo ele, "mas o trabalho flexível é um desejo da maioria dos trabalhadores, traz maior comprometimento e bem-estar e enquadra-se em um local de trabalho moderno."

Camgöz acabou aceitando a promoção e voltando ao cronograma de cinco dias de trabalho por semana, mas gostaria de retomar a semana de quatro dias no futuro - um esquema de trabalho de que Shepherd e Illingworth não abrem mão. Mas todos eles descobriram que colocar em prática o novo modelo de trabalho traz consequências, seja na forma de dias de trabalho mais longos, alta pressão às quintas-feiras ou preocupações com a opinião dos seus patrões.

No caso de Camgöz, ele percebeu que, para que esse esquema funcionasse, seria necessário maior alinhamento entre os seus objetivos, a cultura do local de trabalho e as personalidades das pessoas envolvidas.

"A decisão inicial de conceder-me uma semana de quatro dias de trabalho foi tomada de boa intenção, mas mostrou que é preciso pensar muito para tomar essas decisões", segundo ele. "Neste caso, isso talvez não tenha acontecido."


by Alex Christian - BBC Worklife






domingo, 13 de março de 2022

 

TRAVA-CARREIRA 1: Mentira não tem apenas perna curta, ela tem carreira curta.




Este artigo faz parte de uma série de 10 comportamentos comumente encontrados no mundo corporativo que podem ser desastrosos e, literalmente, travar a nossa carreira. A série será publicada todas às quintas-feiras pela manhã.

TRAVA-CARREIRA 1: MENTIR

Mentir no mundo corporativo é o caminho mais fácil para destruir completamente sua reputação. Eu lembro de um caso que aconteceu nos meus últimos anos trabalhando no Google. Um amigo querido que trabalhava em uma agência me mandou mensagem perguntando se eu conhecia um profissional que trabalhou lá entre 2004 e 2006, eles estavam com uma oferta pronta para enviar e queriam confirmar que o candidato realmente trabalhou com a gente e qualquer outra informação relevante. Quer você goste ou não - porque sei que o assunto é polêmico - é prática comum em muitas indústrias validar a qualidade do trabalho de outros profissionais, e muitas dessas checagens podem acontecer informalmente.

Eu não lembrava daquela pessoa. O estranho é que o escritório nessa época tinha apenas algumas dezenas de funcionários e todo mundo se conhecia. Nunca tinha visto aquele nome na vida. Como eu aprendi a nunca confiar apenas na minha memória, mandei um chat para uma colega das antigas perguntando, ela não lembrava e mandou para um outro, até que um deles nos disse que “mas não tem nada no perfil do LinkedIn dele dizendo que trabalhou aqui com a gente”. Eu o chamei até o meu computador e mostrei pra ele. Estava lá, então ele me pediu para atualizar a página e puff. Desapareceu.

Provavelmente ao ver que várias pessoas da empresa que ele tinha "trabalhado" estavam entrando no seu perfil, removeu rapidamente do seu histórico o tempo em que supostamente estava no Google. Era mentira. Esse tipo de comportamento não é aceitável e ele acabou não recebendo a oferta. Na verdade, esse caso acabou circulando entre algumas agências na época e colocou o nome do candidato na absoluta lama.

Reputação destruída

Quando a mentira acontece quando já se está dentro do ambiente corporativo, pode ser ainda pior. Há alguns anos eu trabalhei bem próximo de um gerente que tinha um desafio enorme no seu time: um membro da equipe mentia compulsivamente. No começo era sobre pequenas coisas: desculpas por não ter respondido um email, atraso com um projeto ou a falta de retorno para um cliente. Só que, conforme o tempo pessoal, o problema foi se agravando.

Ele começou a “matar” os familiares para justificar a ausência. Chegou ao cúmulo de um dia entrar na sala do gerente mancando dizendo que tinha sido atropelado por um carro ao vir de bicicleta para o trabalho. O gerente, preocupado com sua saúde, mandou que ele fosse embora e procurasse um médico para ver se algo mais sério tinha acontecido. O gerente, ao comentar o “trágico” caso do atropelamento com um outro colega, escutou: “O fulano? É mentira, eu o vi chegando e subi com ele no elevador. Estava normal e deu até uma corrida porque estava atrasado para uma ligação.”

Na segunda-feira, após o acontecido, o gerente chamou o fulano na sala, na qual ele entrou ainda mancando, e o confrontou. Disse que sabia que tinha mentido, que não havia acontecido nenhum atropelamento e queria entender porque ele tinha feito aquilo. A reação? O fulano simplesmente respondeu com um “okay” e saiu da sala. Entrou mancando e saiu normal.

Com o tempo descobrimos que na verdade ele inventou aquela história para adiantar uma viagem para a praia. Ele acabou deixando a empresa eventualmente, mas não antes de destruir totalmente sua reputação. Consegue imaginar o que aconteceria se alguém pedisse uma referência ao gerente? Ou até mesmo algum colega que trabalhou com ele? De novo: quer você goste ou não, isso acontece.

Não minta no seu currículo, não minta em uma entrevista e não minta no ambiente de trabalho. Mentira não tem apenas perna curta, ela tem carreira curta.



by Luciano Santos - Dir. de Vendas, Autor do Livro Seja Egoísta com sua Carreira - Linkedin Top

 

TRAVA CARREIRA 2: Brigar com a Realidade





Nas minhas conversas com inúmeros profissionais vejo muitos caírem na mesma armadilha, eles estão infelizes, entediados, não conseguem algo da forma que gostariam e gritam: por que o mundo não faz as coisas do jeito que eu quero e acho que tem que ser? A resposta é curta e simples: não é o mundo que tem que mudar, é você.

O Luiz, gerente de contas de um dos times que eu gerenciava, pediu para falar comigo. Ele estava indignado com algumas mudanças que foram implementadas e alteraria um pouco o escopo do seu trabalho. Ele queria entender o que tinha acontecido e a possibilidade de reverter a mudança, pois achava que não ia ter motivação para continuar na função daquela forma. Eu expliquei o motivo da decisão, dei contexto e fui honesto em dizer que era uma decisão final e não aberta a revisão.
 
Só que eu não parei ali, aproveitei para contar a minha experiência em situações parecidas com a que ele estava enfrentando. Eu já passei por algumas boas reorganizações na minha vida corporativa, e, por duas vezes, a mudança feita me afetou de uma forma que eu não queria ou inicialmente aceitava.

O que eu fiz? Eu mudei, não o mundo e não a empresa. Eu. Quando eu vi que o lugar que eu estava não me servia mais, procurei algo diferente. Na primeira vez eu fiz uma mudança interna e na segunda troquei de empresa.

Mudanças e reorganizações vão acontecer quando a gente menos espera ou quer. Quando isso acontece, é preciso analisar a situação e decidir se o novo jogo é um que você quer participar ou se é preciso procurar outro. A opção é ficar amaldiçoando e reclamando de forças que, na maioria das vezes, não podemos controlar. Eu vejo isso como um desperdício enorme de tempo e energia.

O Luiz levou meu conselho a sério, aplicou e passou para uma outra vaga interna alguns meses depois. Ele entendeu que se o lugar que está não nos serve mais, é nossa responsabilidade encontrar um outro.

Não brigue com a realidade, você sempre vai perder. Ache uma outra para fazer parte.



by Luciano Santos - Diretor de Vendas - Autor do livro Seja Egoísta com sua Carreira - 
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TRAVA CARREIRA 3: Não saber dar e receber feedback





Eu poderia escrever um livro inteiro sobre feedback e com certeza não seria possível cobrir tudo. Saber receber e dar é absolutamente essencial para todo profissional e ainda mais crítico se você está em uma posição de liderança. Muita gente treme com o simples pensamento de ter que dar feedback para alguém e range os dentes de raiva quanto tem que receber um. É algo bem desafiador de se fazer, principalmente no início, mas não dá para deixar de aprender.

Feedbacks são essenciais em qualquer ambiente corporativo, eles nos fazem enxergar pontos cegos, mapear áreas que precisamos melhorar e entender como os profissionais que estão ao nosso redor vêem o nosso trabalho. É puro crescimento. Por isso, temos que praticar bem essa habilidade e buscar ter maestria em dar e receber feedback.

Recebendo feedback

“Ela viajou, não concordo em nada com esse feedback. Eu nunca fiz isso”.

Escutei a frase acima quando um colega me falou sobre o feedback que recebeu de uma pessoa de outro time que compartilha o gerenciamento de um projeto com ele. Há algo que aprendi cedo em minha carreira e acredito firmemente: não existe feedback errado. Feedback é a percepção que alguém tem de você, e se determinada percepção existe sempre há algo que podemos fazer, mesmo que a gente não concorde com o que recebeu.

Quando receber um feedback, a primeira coisa a fazer é agradecer imensamente pela pessoa ter tido a coragem de te dar um presente desses. A maioria dos profissionais que você irá cruzar em toda sua carreira não fará isso. Claro que você pode pedir exemplos, para falar um pouco mais sobre o que aconteceu etc, mas não reaja negativamente, não rebata e não faça cara feia. Se fizer isso, a probabilidade de receber outro feedback da mesma pessoa irá cair drasticamente.

Depois de escutar o restante do desabafo, fiz um desafio para o meu colega: imagine, mesmo que você discorde totalmente, que você pudesse fazer algo para melhorar o ponto que ela trouxe. O que você poderia fazer? Um pouco desconfiado, ele refletiu e me disse 2 ou 3 coisas que poderia fazer para melhorar o relacionamento e a comunicação entre eles.

Será que o feedback estava totalmente errado mesmo? Talvez sim, mas sempre podemos fazer algo para melhorar qualquer situação. Eu falo que mudar ou adaptar algo por ter recebido um feedback, mesmo que a gente não concorde com ele, é o nível mais avançado de aceitá-lo, e incrivelmente poderoso para o nosso avatar profissional.

Eu sempre falo que feedback mesmo quando é ruim, é bom. O motivo? Quando alguém se dispõe a dá-lo, temos de agradecer e incentivar. Não se joga um presente fora.

Dando feedback

Por que as pessoas têm tanto medo de dar feedback? São muitos os motivos, elas não se sentem aptas por não terem sido treinadas, a cultura corporativa não incentiva a prática, não sabem como fazer, por onde começar e não querem correr o risco de ofender alguém. Esse último, o medo de ofender, é o mais comum.

Esses receios acabam fazendo com que muitas pessoas nunca recebam um feedbackzinho sequer no ambiente de trabalho, sendo surpreendidos com fofocas a seu respeito, avaliações baixas e, em casos mais extremos, até demissões. Isso é muito injusto com profissionais que precisam, se alguém não sabe onde precisa melhorar não terá a oportunidade de se desenvolver.

Você precisará de uma certa dose de coragem e de sair do lugar quentinho onde não se dá feedback para começar a praticar. Vai ser desafiador no começo? Vai, mas é necessário. Alguém vai se sentir ofendido? Vai, mas é para o seu próprio bem. Agora parte boa: há muita técnica e boas práticas que podem ser utilizadas para tornar o processo mais suave. Eu mapeei 7 passos para dar feedback com eficiência que pode ser um bom guia para quem quer começar ou mesmo aprimorar a forma como dá feedback, vamos a eles.

7 passos passos para dar um feedback poderoso:

1. Escolha um local adequado: sempre que vamos dar feedback para alguém, devemos fazer isso em um local isolado em que só estarão vocês dois. Parece besteira, mas, além de ser desconfortável ter essa conversa com mais pessoas ao redor, cada um reage de forma diferente. Uma vez, quando eu era um coordenador júnior, fui dar um feedback bem suave para um profissional e, por falta de sala, resolvi fazer no café da empresa. Quando ainda estava na metade, a pessoa começou a chorar. Logo várias pessoas vieram ao nosso encontro para perguntar o que estava acontecendo. Imagine a cena? Aprendi a lição.

2. Pergunte como a pessoa acha que está desempenhando no ponto que irá dar feedback: seja um projeto, um comportamento ou o desempenho da pessoa no ciclo, comece perguntando como a pessoa acha que está. Perguntas do tipo “como vai o andamento do projeto X” ou “qual é sua avaliação do seu semestre” são boas maneiras de entender como o profissional se enxerga. Escute atentamente, as informações que aparecerem aqui podem ajudar imensamente nos pontos 3 e 4.
O conteúdo deste artigo é parte do livro Seja Egoísta com sua Carreira, conheça aqui.

3. Comece com os pontos positivos: eu gosto de começar destacando os pontos positivos e fortes da pessoa. Todos nós, sem exceção, temos pontos a melhorar e pontos que mandamos muito bem. Começar logo com as áreas de melhoria pode ser um pouco desmotivador para alguns profissionais. Começar pelo o que está funcionando é uma ótima oportunidade de reconhecer o que é positivo na pessoa para depois entrar nos ajustes que precisam ser feitos.

4. Dê o feedback e exemplos: agora é hora de entrar no que precisa ser trabalhado. Eu sempre aconselho as pessoas a evitarem rodeios e irem direto ao ponto. Tem que trabalhar o comportamento? Diga: “há uma questão de comportamento que precisa ser trabalhada”. O projeto está atrasado? Diga: “o projeto está atrasado”. Direto ao ponto. Agora, o pulo do gato: SEMPRE exemplifique seus feedbacks. Usando os mesmos exemplos acima, na questão de comportamento: “você não tem contribuído muito nas reuniões, nas últimas três que participou não comentou nenhum dos pontos discutidos” ou “concordamos que o projeto seria entregue na data tal, já se passaram X dias e ele ainda não está pronto”. Feedback sem exemplo é igual pastel de vento: não tem conteúdo nenhum.

5. Escute: depois que o feedback for entregue, é hora de escutar. Pergunte se a pessoa entendeu o que você quis passar e se tem alguma dúvida sobre o que conversaram. Sinta o momento, algumas pessoas preferem digerir tudo que foi dito e outras já entrar nos pontos para entender mais. Não tem certo e errado.

6. Não terceirize: uma das piores coisas que se pode fazer em uma sessão de feedback é usar terceiros para validar seus pontos. “O fulano disse que você é agressivo”, “o ciclano acha que você não está colaborando”, “o diretor acha que você…” e por aí vai. Isso desqualifica o feedback e joga a responsabilidade no terceiro. Seja dono e responsável pela conversa.

7. Coloque-se à disposição de um papo adicional: acabada a sessão, coloque-se à disposição para ter uma conversa adicional sobre o que acabaram de discutir. Como eu já falei, algumas pessoas precisam de tempo para digerir o que foi conversado para então estarem prontas para uma conversa adicional e outras vão querer ir mais a fundo depois de alguma reflexão. Acomode essas necessidades.



by Luciano Santos - Dir. de Vendas, Autor do Livro Seja Egoísta com sua Carreira

Status: disponível